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 A primeira vez que cruzei com ele foi no Bom Fim, bairro boêmio em Porto  Alegre, no Copa 70, um bar onde se encontravam artistas, hippies e a  resistência da ditadura. Eu o achava uma figura interessante, jeito de  artista, personalidade forte, nariz adunco, cabelos encaracolados e  fartos, macacão jeans …mas nem sabia ainda o que ele fazia. Certa vez  houve um show universitário, uma espécie de sarau na frente da  universidade de arquitetura onde vi Nico pela primeira vez tocando. Era  aquela figura de macacão jeans tocando violão e cantando uma musica que  não era um blues mas falava : “Catinga Blues, um homem fantasiado de  amendoim me olhou e disse assim Catinga Blues”… Fiquei intrigado com  aquilo. O homem fantasiado de amendoim me parecia ele mesmo, com o nariz  adunco e o cabelo espigado. Eu tinha 17 anos. Uns dois anos depois foi  anunciado um show com de um grupo de Porto Alegre com um cara baiano. No  teatro do IPA, eu e minha namorada fomos ver. Parecia importante o que  iriam fazer. Nico com seu estilo único, lá estava. Cantava "Pois o homem  que não chora , fica seco o seu jardim você pra mim foi como o vento...  que passou trazendo a chuva que molhou por dentro o meu amor... Lirismo  puro, poesia original. Nico cantava, piscando os olhos, havia alguma  coisa acontecendo com ele que nós não decifrávamos, mas simplesmente nos  encantávamos. Era um artista original que não deixava duvidas sobre  isso. Logo veio todo o sucesso do Musical Saracura. Canções maravilhosas  que marcaram gerações e destilavam bom humor. Uma aproximação natural  como folclore gauchesco também nos  encantava.
 Uma vez eu estava tocando em um restaurante com Norminha Duval, uma  excelente violonista, e a família do Nico apareceu num domingo.  Tocávamos nas mesas circulando pelo restaurante. Fomos a mesa da família  e todos pararam tudo para ouvir o que tocamos. Todos curtiam muito  musica. Eu falei que conhecia ele que tinha ido aos shows e tal. Ele  curtia saber que era reconhecido mas não falava muito.  Depois começamos  a nos encontrar em shows coletivos no Araujo Vianna e em festivais como  O Cio da Terra. Eu tinha uma outra dupla com o Sabrito era "Hique e  SaBrito", tocávamos vários instrumentos e o Sá tocava acordeon também.  Nos sentíamos compartilhando uma cena, compondo e tentando traduzir os  em arte as tendências do tribo. Mas ele já era um ídolo. Um dia nos  encontramos a redenção e eu falei que estava gravando , ele perguntou o  que eu estava tocando eu falei até violino. Isso despertou um interesse  imediato nele. Marcamos de levar as minhas gravações na casa dele. Eu já  estava casado fomos eu e Heloiza. Mostrei a fita toda e ele disse que  não gostava muito daquilo, mas tinha gostado do violino. Falei que eu  estava começando e podíamos estudar juntos. Marcamos uma sessão na minha  casa e ele apareceu.
 Ele tocou algumas musicas e eu mandava ver no violino como quem estivesse tocando guitarra, que era o som mais parecido para quem nunca havia estudado. Meu jeito de tocar violino era country, tipo fidler. Era rústico .  No final de uma canção ele falou , “bah… mas tu não quer nem saber né.” Fiquei reticente… não sabia se tinha gostado ou não. Ele percebeu que eu não havia entendido, e emendou “ não, é que o violino que eu gosto é aquele tipo romântico. Pensei romântico??? Jamais pensei naquela época em tocar nada romântico. Aliás romantismo era uma coisa muito careta no meu meio de amigos. Ok, falei, “toca mais uma”, e dei uma maneirada na minha pegada de guitarrista ao violino. Fiz de conta que acompanhei num violino romântico completamente sem romantismo. Aí ele curtiu mais porque eu avia suavizado. Era só o que falta, eu virar um violinista romântico… seria uma vergonha para minha parceria com o Fábio Mentz, fazíamos musica e astrologia não tinha espaço para romantismo. Ficamos de nos encontrar outro dia na casa dele. Fizemos mais algumas sessões e eu lembro de um comentário do seu irmão o Ricardo sobre meu violino... "Bah, como toca mal..." Eu sabia disso, estava começando mesmo e as sessões era para estudarmos musica juntos. Eu havia estudado violão clássico e já tocava razoavelmente . Tocava guitarra desde os 15 anos. Mas o violino é um instrumento ingrato. Ele então tocou O Ébrio do Vicente Celestino. Eu conhecia de um disco que tinha em casa sobre história da Musica Brasileira, mas jamais havia pensado e tocar. Ele dava o texto introdutório mudando algumas palavras e eu achava aquilo ridículo e muito engraçado. Começamos a nos divertir e a tentar outras canções até que pintou uma data no Bar do IAB para um show que ele estava preparando. Ele pensou que podíamos fazer juntos adiou a data e começamos a nos dedicar a um repertório. Ensaiávamos casa da mãe dele D. Janete, onde tinha um piano, e as vezes na cozinha onde tinha uma mesa onde escrevíamos. Neste bar do Instituto dos Arquitetos do Brasil tinha uns shows legais. Um deles era do Cem Modos , um fantastico grupo de bonecos, Luiz Ferré, Betinho Dorneles e Pedro Girardello, que mais tarde se transformou no TV Colosso da Globo. Tinha um personagem chamado Bonder, era um antropólogo que que falava uma lingua estranha ia para uma excursão chamada Skavoka Skavoka. Eu pedi para o Ferré fazer uma letra para nós com aquela lingua em cima de uma musica do Chaplin que se adaptava muito bem ao que o Nico estava propondo. Como ele não aprontava e o show estava proximo fizemos nós mesmos.
 E ficou assim :  Fiz a primeira parte:  Desgrazzia Ma non troppo  Qual trono fá piruela  Se táti embriagado balhe a riba su topor.     Nico fez a segunda:  Pletskaya e Kraunu sangue  Desesperovna Schissel  Pobrovna mãe materna  Kliks on Vander Boi tatá     Dividimos :  Su barcarola vola  Su schnessel vassen frito  Vá nun tango e carcamano  Cara dura e macarrón  aleronte siaca  aleronte siaca    aleronte siacabou
 Vamos fazer personagens, eu propus, como a frase "Pletskaya e Kraunus Sang"poderia sugerir. Eu sou Kraunus Sang! Ele pensou e falou "ok eu sou Pletskaya". Mas ainda não tinha certeza disso, tanto que falava que não se lembrava deste momento.  Uns dias antes da estréia tínhamos um repertório bem coerente e muito divertido.  Uns tangos do Vicente Celestino , o Tango da Mãe que o Saracura já havia gravado do Claudio Levitan. Ele não queria tocar essa por ser da banda que ele estava saindo mas eu insisti. Além disso outras musicas trágicas incluindo um samba de breque. Ele falou que havia pensado num nome e disse, "que tal Tangos e Tragédias?" Saímos rindo do ensaio que ficava cada vez mais divertido.  Chamamos o Roberto Silva para fazer fotos promocionais e colocamos umas roupas emprestadas como o repertório sugeria. Roupas antigas surradas e Preto e Branco. Nesta sessão de fotos surgiram os personagens. No dia da estréia estávamos nos corredores e do bar e os nomes dos personagens voltaram a pauta e é deste momento que ele falava que se lembrava.  Eu tinha 24 anos e estudava musica para ser orquestrador, mas depois deste dia passei a fazer parte de uma das aventuras mais instigantes das artes performáticas feitas no Brasil. Passei a desenvolver um tipo de performance que supreendesse o meu parceiro e que ele achasse instigante ao mesmo tempo. Ele foi um artista exigente pra caramba. Era difícil agradá-lo, mas eu sei que consegui. Trabalhei muitos anos com este objetivo de surpreender e agradar o meu parceiro, pela via do desafio criativo. Se fosse para sermos musicistas/humoristas que assim seja. A cima de tudo criamos uma obra de arte radical.  Tivemos muitos conflitos, especialmente de estilo pessoal. Mas utilizamos estes conflitos como mola propulsora, e o que ficou como resultado em parceria de 30 anos foi :  "Ninguém! Ninguém se divertiu mais do que nós!"
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