Tava tendo copa do mundo. "Escuta, aquela TV ali no canto, não dá pra ligar ela no jogo enquanto a gente grava?"  O Nico sempre me pegou desprevenido. Sempre. Acho que, sendo eu mineiro e por isso não exposto à sua arte desde os primórdios, mais desprevenido ainda. De cara, quando vi o Tangos & Tragédias num teatro em Belo Horizonte, já na época a muito tempo em cartaz, mas pra mim eram vindos de lugar algum. De outro planeta, quero dizer. Depois, quando o André Abujamra sugeriu convidá-los para participar do disco que produzia conosco à época, eu não soube nem o que fazer com tanto talento que entrou pela porta do estúdio. Depois participaram do nosso "Ao Vivo". Ali nos tornamos amigos, e nos ensaios comecei a ter uma vaga noção do artista com quem estava lidando. 
  Daí ele me chama pra produzir seu disco. Me lembro da troca de emails, telefonemas, aquele monte de repertório pra escolher, músicas de todo tipo, umas pré-produções muito boas. Quando veio pro meu estúdio e começou a cantar e tocar, lá estava eu, desprevenido de novo, admirando aquele tipo de personalidade que parece ter um universo próprio, molde únco, canta como mais ninguém, compõe como mais ninguém, tudo é expressão de um modo de ser próprio, original e genuíno.
  Quando escuto hoje em dia o que fizemos juntos, mais uma vez tomo um susto. Adoro esse disco, me emociono ao ouvir, acho incrível que ele tenha me chamado pra produzir, que tenha saído de sua zona de conforto gaúcha e tentado ver no que daria a minha contribuição. O que sairia do encontro desses universos paralelos que sempre se admiraram de longe, mas que raramente são postos à prova juntos? O Nico pagou pra ver, me encho de orgulho de pensar que ele me considerou à altura para a tarefa.
  "Onde Está o Amor?" pra mim é quase um álbum-conceito, um disco romântico, de um romantismo de tiozinho, de adolescente, de adulto, sério e cínico ao mesmo tempo. Algumas músicas eram composições mais antigas, o que explica alguma coisa, mas não tudo. Pra entender mesmo, vocês precisavam ver o Nico no estúdio. Seus takes de voz eram incríveis, tinham uma paixão e uma doçura tão sinceras como raras vezes vi. A gente mudava o tom radicalmente pra experimentar, e ele continuava "dentro da música", obedecendo ao que o novo tom ditava, apontando pra uma emoção que estava até então escondida na composição. E a TV ali no canto, passando o jogo. Peça rara, que saudade. O amor está em suas músicas, Nico.  (John Ulhoa)
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