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 Há anos eu implorava pro Nico gravar um disco solo. Já tinha até desistido quando, jantando depois do show de lançamento do disco do Hique, o fabuloso "O Teatro do Disco Solar", em pleno Birra & Pasta, dividindo uma mesa com Nico e Fernando Pezão, resolvi tentar de novo, só por desencargo de consciência.   - Meu, agora que o Hique fez o dele, tu não vai fazer o teu?  E Nico, de bate-pronto, olhando pra mim e pro Fernando:  - Sóóó se vocês produzirem.  Bah!  Sim!
 Corta pra dali a uns meses.  Reunião na casa da Márcia e dele, com a primeira trazendo sorriso e sanduíches e o segundo monologando ensandecido milhões de ideias e conceitos.  E a gente ali, Pezão e eu, só escutando.  Até que:  - Maaaaaaas voooocês não vão falar nada?!?!  Seguido de uma obra-prima do ato-falho:  - Voooocês tão aqui pra dizer o que eu acho!!!  Pezão:  - Exatamente. Então... que que eu vou te dizer?
 Primeira missão: decidir qual show seria a base do tão adiado primeiro disco: o elétrico "O Poeta Analfabeto" ou o íntimo espetáculo a duo que tinha feito, voz, piano e bateria, com o Fernando, pouco tempo antes. Depois de muita discussão, para minha alegria e júbilo - esse show mudou minha vida - foi esse, íntimo, que acabou sendo o escolhido. Começam as gravações nas madrugadas ociosas de um estúdio de publicidade emprestado por um amigo. Do que eu mais lembro é do sofá que me acolhia nanando naninha nas horas mortas das discussões entre os velhos parceiros e cúmplices Nico & Pé sobre o andamento correto de cada tema - discussões daquelas que, certamente, o Jorge Luís Borges classificaria como mais adequadas à eternidade do inferno do que à nossa efêmera passagem pela terra. Não adiantava nem tentar me meter. Afinal eu era só o co-produtor, e muito obediente aos chefes. Só me restava rir de tanta meticulosidade junto com o Silvinho, craque importado direto do Roberto Carlos, que gravou e mixou tudo.  Dessas primeiras sessões, onde foram feitas as guias todas e gravados os teclados, fomos para o melhor estúdio da Porto Alegre de então - a Eger/Tec Audio. Era a hora de colorir aquele esboço: tuba, trombones, acordeom, baixo acústico, a mínima e fabulosa bateria do Pezão e... um piano propositalmente desafinado.   Sim, a gente chamou o Person, até hoje o melhor técnico de pianos da área, pra desafinar o piano de parede do estúdio, atrás daquele timbre maravilhoso de pianinho vagabundo de cabaré, vaudeville, music hall.   Terminado isso, era vozes e, agora sim, um puta piano. Vozes na mesma Tec, o fabuloso Steinway & Sons de cauda do teatro da Reitoria da Puc, com aquela acústica única, registrado pelo professor Pardal Marcelo Sfoggia.  E se até agora tudo tinha sido encanto e diversão, esse era o momento de sentar, abrir ouvidos e olhos e simplesmente receber aquela beleza e aquela excelência toda que jorravam dos dedos e da garganta do meu amigo. Nunca vi ninguém cantar como o Nico. Nunca vi ninguém tocar como o Nico. Não que ele fosse melhor que todo mundo, não é isso. É que era muito único. Sua música era muito única - letra, música. Sempre deu pra saber que ele tinha ouvido muito Satie, Nino Rota e Odair José, mas isso era tão reprocessado que gerava uma outra coisa. E o som que ele tirava do piano, sempre da forma mais clara e simples que obsessivamente ele buscava, também era único. 
 Tenho muito, muito orgulho desse disco. Não acho que haja outros discos como esse. Um disco que não envelheceu nada, que segue atemporal e singular. Íntimo, lírico, mínimo. Não parecido com nada que eu tenha ouvido antes ou depois.  Minto.  Anos passados do seu lançamento, saio de uma das salas de cinema da Casa de Cultura Mário Quintana absolutamente encantado com O Fabuloso Destino de Amélie Poulain. Mas, pensando no disco do Nico e suas valsas com acordeom e piano, a primeira coisa que faço quando chego em casa (em tempos pré-celular) é ligar pro Nico:  - Meu. Fudeu. Vai ver o filme que tá passando na Mário Quintana. E te prepara: daqui pra frente a gente (sim, é fácil deduzir: minha música tem muito da música do meu amigo) vai ser pra sempre os caras que imitam o cara da trilha do Amélie Poulain.  Felizmente errei.
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