O Nico era mais do que um grande amigo, era como um irmão caçula, meu inesquecível parceiro.   Fazer música com ele era muito fácil, bastava nos encontrarmos e decidir: vamos fazer uma música? E fizemos muitas.   Além de um baita compositor, era um intérprete maravilhoso, sensível, revelava as canções. A ele devo o sucesso de muitas das minhas canções. Mais pareciam dele do que minhas. No Saracura, ele experimentava até aquelas que eu levava na brincadeira. Uma delas foi o grande sucesso do Tangos e Tragédias: Ana Cristina. Devo isso a ele. Por isso, tudo que me pedia, eu atendia de bom grado.
  Fui assistir duas ou três vezes o seu show MÚSICAS DE CAMELÔ (hoje me arrependo de não ter visto mais!). E disse o que achava: era a síntese de tudo o que ele buscava há anos. Simplicidade, canções lindas que o povo adora e de produção fácil e prática. Ele sozinho no piano tocando o que gostava com humor e respeito. Desde sempre, gostava de trazer para seu repertório as canções de outros tempos, de interesse dos mais simples, do gosto popular. Coisa que também buscava em suas canções: atingir todo mundo. Por sua cultura musical, introduzia esse conhecimento e tornavam-se canções populares sofisticadas.  Nesse show, ele fez isso com o domínio da experiência em todos os seus sentidos, principalmente, do seu  timing  de palco.  Falei pra ele que os seus quatro talentos estavam postos no palco com muito equilíbrio: o pianista, o intérprete, o compositor e o ator.  Ele me olhou em silêncio e ficou quieto. Fiquei na dúvida se ele gostou do que falei ou se ofendeu.
  Um tempo depois, me ligou assustado: "tô indo no Jô dar uma entrevista sobre o meu show que estou levando pra SP! Pensei até em perguntar se podia te levar junto kkk Será que tu podias me repetir o que tu falaste sobre meu show?"  Falei sobre os quatro pontos. Ele me pedia para repetir. "Estou anotando!" Ele estava se preparando pra entrevista. Estava apavorado. Como gago, o Nico odiava ter que responder perguntas, dar entrevistas, falar. Ajudei ele e nos divertimos organizando as frases. A Márcia do Canto disse uma vez que o Nico não é engraçado, ele é sincero!" Era bem isso!   Ele escolheu as frases que lhe pareciam melhores para decorar e poder dizer sem gaguejar. Uma delas, conseguiu dizer no meio das perguntas e que me pareceu pouco natural: "na verdade, o show é uma reverência à capacidade dos compositores de lavar a alma humana". Noutro momento, ele interrompeu o Jô para elogiar a pergunta dele, mas preferiu cantar outra canção que definia melhor o show. Era a canção que virou sucesso na voz do Teló ("Ai, se eu te pego") em que ele usa um piano quase clássico, uma voz romântica e um respeito intenso pela canção, o que definia exatamente as qualidades desse trabalho como um todo.   Na plenitude da sua arte, ele pode revelar que o gosto popular era imbatível, como se diz, "vox populi, vox dei".  (Claudio Levitan)
prev / next