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 Em 2002 o Nico me convidou para participar como cravista da gravação do CD da ópera “As Sete caras da Verdade”. Neste processo criamos juntos boa parte da sonoridade do cravo na instrumentação da ópera e acabamos nos aproximando como amigos. No lançamento do CD em 2003 falei para ele que esse projeto não poderia ficar apenas num disco, que deveria ir para o palco ao vivo. Mas naquela época o Nico não enxergava o CD num espetáculo.
 Uns anos depois, convidei o Nico para fazer um Concerto com músicas autorais dele com a Orquestra Sinfônica de Carazinho, projeto que ajudo, e foi neste momento que nos aproximamos mais, pois todos os arranjos orquestrais escrevi especialmente para aquele espetáculo. O processo de criação foi realizado em parceria, onde eu escrevia os arranjos e trocávamos ideias. O Concerto foi um sucesso, tanto que foi realizado mais duas vezes em Porto Alegre, uma delas com a Orquestra de Câmara Theatro São Pedro e outra com a Orquestra de Câmara da ULBRA. Nesta última teve a participação da Fernanda Takai. Dando sequência, convidei-o para fazer um espetáculo com músicas de Beatles com orquestra e coro. Nesta ocasião a Nina participou junto e foi uma das primeiras apresentações dela como solista. O concerto Beatles também foi um sucesso, tanto que no ano seguinte fizemos uma segunda edição com novas músicas.
 Neste ambiente fazendo música orquestral, foi quando eu trouxe novamente, praticamente 10 anos depois do lançamento do CD, para apresentarmos em palco a ópera “Sete Caras da Verdade”. Neste período surgiu o convite de apresentá-la no festival Em Cena, no Theatro São Pedro, em Porto Alegre. Nesta vez o Nico decidiu apresentar em ópera. Ele sempre me dizia que nunca imaginava encenar a ópera porque ele não imaginava mais de 2 pessoas no palco juntas, que dirá 40? Mas era preciso transformar o formato inicial numa música para espetáculo, inclusive na duração, porque no CD tinha um molde mais de musical e tinha menos de trinta minutos e para uma récita de ópera era necessário que durasse pelo menos uma hora de espetáculo. Nesse momento, reuni todo o material antigo e comecei a fazer um novo arranjo e orquestração, tudo com uma “cara” mais lírica. Nesse processo também acabei compondo algumas novas passagens para dar uma forma operística.
 Esse processo levou aproximadamente 6 meses para recriar a música. Era muito fácil trabalhar com o Nico, nós nos entendíamos muito bem porque pensávamos muito parecido. Quando eu trazia uma ideia nova para ele, era aceita de imediato, até algumas vezes ele dizia para mim: “como não pensei nisso antes!”.    Para esse novo formato foi necessário mudarmos o elenco, e além dos solistas entrou o Coral Expresso 25, que tinha uma função cênica muito importante. As questões musicais todas estavam sendo pensadas neste novo conjunto. Outra participação muito importante foi da Márcia do Canto para a criação e direção cênica, onde música e cena caminhavam no mesmo sentido.    Foram muitas madrugadas trabalhando neste novo arranjo e orquestração até chegar na versão definitiva, sempre sem mudar o embrião inicial.
 Ao fim ele disse que não imaginava que seria tão fácil e recompensador, tanto é que em seguida ele iniciou um novo trabalho, a ópera “O Rei Arthur”, que ficou inacabada. Continuamos a fazer outros trabalhos orquestrais, dentre eles o Músicas de Camelô orquestrado, cujos arranjos para o show completo foram finalizados poucos dias antes dele ser hospitalizado. Tínhamos muitos planos para depois da sua recuperação. Infelizmente não foi possível continuar com nossos planos. Perdi, além de um colega, uma pessoa que admiro muito, um amigo-irmão.
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